Monstro Animal
TREM QUE PULA, TRACAJÁ, SANGUINOLENTO!

mar
29

Sou mineiro de Londrina, radicado em Curitiba. Comecei a conhecer essa cidade em Balneário Camboriú, que já era a praia de muitos curitibanos nos anos 70 e meados dos anos 80. Foi minha prima, Cristiane, curitibana nata, essa sim, quem me carregou pelas mãos. Ela me apresentou a Sorveteria Effes, onde os curitibanos tomavam suas bolas de sorvete. Meu primo, Marcelo, também me mostrou a Curitiba de Balneário: com ele, aprendi a jogar fliperama, andar de kart e sair no tapa com a molecada de Curitiba, na pracinha atrás do prédio. Éramos dois piás e entrávamos em qualquer briga, só pelo bel prazer de lutar.

Veio então a Curitiba das férias de julho. Eu já era um adolescente quando minha prima, Isabela, me apresentou o Cine Condor, o filme era “O Poderoso Chefão III”. Saímos na Cruz Machado, depois da sessão, junto com minha irmã – Chris – e a neblina descia densa, envolvendo os postes de luz amarela. O frio me pegou atravessando a Cruz Machado e eu nunca mais acostumaria ao clima quente do norte.

Anos depois, finalmente nos mudamos – meus pais, minha irmã e eu – para essa capital. Coincidentemente, fomos morar na Saldanha Marinho, a três quadras do Cine Condor. Como calouro de comunicação da Federal, a Rua XV virou minha passarela de casa para a faculdade. À noite, Curitiba começava no Rebellion, na Praça Espanha, e terminava no Potato, na Av. Paraná. No meio do caminho haviam o Frisco, o Dolores Nervosa, Joe, Dromedário, Bife Sujo, Tragos Largos, Circus e é melhor parar por aí.

Mas eu gostava mesmo era de perambular pelas ruas do centro de Curitiba, como gosto até hoje. Ninguém me conhecia, aprendi a ser um fantasma boêmio, uma pedra rolando. Com as minhas primas, Carolina, Patrícia e Cristiane, passei a aparecer nas festinhas e rever pessoas com nome, sobrenome e até RG. Meu tio, Ciro, apresentou-me a literatura e arte locais. Ele também me falou dos restaurantes, seus frequentadores e dos melhores pratos, quem eram os garçons mais bacanas, como eu nunca havia ouvido antes nesse logradouro. Contou-me, sempre com muito senso de humor, algumas das melhores histórias desses lugares. Despontava, para mim, uma nova Curitiba.

Certo dia eu li, era um livro do Dante Mendonça, sobre a Banda Polaca. Passei a prestar atenção em figuras como Mazinha, Solda, Lina, Maí, o próprio Dante. Trata-se de uma turma numerosa de jornalistas, cartunistas, escritores, fotógrafos e carnavalescos de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Acompanhei seus debates pelos jornais, pelas Redes, e tive a oportunidade de sentar em volta das mesas onde eles debatiam pessoalmente, olho no olho. Então eu li “Curitiba, Melhores Defeitos, Piores Qualidades”, também do Dante. Lembro do início do livro, quando um cacique-pajé, cercado de um grupo de pioneiros, parou no meio de uma planície, a 900 metros de altitude, e estacou seu cajado no exato local onde hoje está a Praça Tiradentes. O cacique fez uma exclamação em sua língua nativa e todos pensaram que ele exclamava: “é aqui!”. Estava estabelecido o ponto zero da futura capital paranaense. Mas veio o tradutor e esclareceu. O cacique, na verdade, havia exclamado: “tragam o Arquiteto!”. A história, segundo Dante, era mais ou menos assim. Não me lembro perfeitamente, mas que história realmente boa pode ser contada em linha reta? Certamente não uma história de 324 anos. São três séculos entre a chegada do cacique e a minha.

Finalmente conheci o Arquiteto. Foi também por causa de outro livro do Dante: Botecário – o Dicionário de Botecos. Perguntei ao Dante: “mas o Jaime gosta de um boteco?”. O Dante deu risada e me passou o número do Jaime. Passei a rodar alguns botecos com o Arquiteto e adquiri todo um novo olhar sobre essa cidade planejada a muito custo. No Instituto, fui apresentado a outros arquitetos e urbanistas, de gerações mais recentes: Fernando Canalli, Felipe Guerra. É bom saber que eles estão por aqui, envolvidos com o urbanismo e até com o carnaval na cidade.

Por essa época, já estava envolvido com os eventos e a produção cultural. Mergulhei na gastronomia e descobri que Curitiba tem raízes e tendências cosmopolitas para todos os lados. A cidade respira tendências e as devolve com igual ou maior intensidade. Isso nas mais diversas manifestações: da Arte à Gastronomia, da baixa à alta, sempre com igual paixão e devoção.

No meio musical, fui apresentado a João Egashira, Glauco Solter, Sérgio Albach, Julião Boêmio, Marcela Zanette, Daniel Miranda. Tive a imensa Sorte de ser apresentado ao Ricardo Salmazo que, mais tarde, me apresentou o Samba do Compositor Paranaense e o Sindicatis. Esses dois projetos mudaram completamente a minha forma de enxergar a música por aqui e no mundo. Conheci e trabalhei com a Maytê Corrêa. Tornei-me fã das rodas de choro e do Grupo Choro & Seresta. Também descobri o Mano a Mano Trio, o Trio Quintina e o Alexandre Nero e a Maquinaíma, o Riado – no Ponto Final – que embalaram algumas das minhas melhores noites ao longo de muitos anos. Havia a banda Blindagem, a Reles Pública, Resist Control, Beijo AA Força e por aí vai.

A certa altura e em ritmo impositivo, à partir das Redes Sociais a sombra da política passou a fazer parte das pautas. Por mais que eu tentasse fugir, era como naqueles versos do Juraildes da Cruz: “eu pensei correr de mim, mas aonde eu ia eu tava. Quanto mais eu corria / mas pra perto eu chegava.” Da política local, preciso confessar: eu gosto de ler o Miau Carraro chamando o Greca de Valdirene, de alcaide, dou muita risada, divirto-me logo pela manhã. Gosto de ler o Beto Madalosso dando os primeiros passos como ensaísta, cronista e escritor de opinião. Me atrai a coragem dele, sua exposição à partir dos próprios escritos, o jeito que ele “pensa em forma de texto”, como ele mesmo já declarou.

Falando em textos e em cultura, gosto de ler o Sandro Moser na Gazeta do Povo, como ele garimpa e presenteia o leitor com informação sobre música, artes e espetáculos. Foi na casa de amigos – Lu e Crivano – que descobri que o Moser sabe tocar violão. Aos meus olhos meio bebuns – entre teclados, guitarra e violão – o Moser era Joe Cocker, Gordon Gano, Tom Waits.

Finalmente, eu gosto da Curitiba de Luis Henrique Pellanda, meu contemporâneo de UFPR, como vim descobrir recentemente. As crônicas desse autor trazem de volta a cidade onde desembarquei, tantos anos atrás. O centro e a Rua XV, as Praças Osório, Tiradentes e Santos Dumont, ou “Pracinha do Amor”. Essa sita à Rua Saldanha Marinho, diante do antigo Cine Condor, no caminho entre o Edifício Colombo e o antigo prédio da UFPR. Essa é a região onde a cidade converge na Curitiba que desembarquei, mineiro, vindo de Londrina, no norte do Paraná.

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jan
02

A nossa casinha

Maior do que o espaço sideral

Não cabia em um vaso de flores

 

Os nossos problemas

Menores do que um pardal

Formando um rosário de dores

 

E nós dois

Experientes, um lindo casal

Perdidos no grande jardim de cores

 

Que é lúgubre

E já recebeu muito vendaval

Inóspito abrigo para novos amores.

dez
23

Quem diz que o curitibano não gosta de falar com estranhos é porque não sabe puxar assunto. Até no elevador o nativo da capital paranaense não resiste a um papo para quebrar o gelo. Quer ver? Comente sobre a meteorologia. Não há em Curitiba quem não aprecie um relatório de última hora sobre o boletim do tempo. Mas seja minimamente criativo. Evite abrir com um “frio, né?”. Você vai receber, no máximo, um “aham” ou um silêncio ainda mais gelado do que a temperatura em Celsius. Seja original, abra com “São Pedro faz algazarra por aqui, não? Essa cidade é tipo o penico dele”. A resposta será, muito provavelmente, um sorriso conspiratório, seguido de “pois é, haja cabide”. Pronto. Daí pra frente você pode seguir falando sobre o seu guarda-roupas, contar quantas vezes deixou de levar o carro para lavar e segredar sobre o último boletim médico emitido pelo alergista. Entre o térreo e o décimo andar pode ser que vocês já tenham trocado os contatos dos seus médicos de confiança para doenças respiratórias, além de uma ou outra receita para crises de rinite, coriza acentuada e truques para combater o bolor dentro do armário. Não concorda? Sou capaz de apostar um saco inteiro de naftalina. Um frasco de Sorine. Um inalador de última geração.

Agora, em São Paulo é diferente. Se você for curitibano e puxar assunto sobre o tempo, vai ouvir logo um “você é do sul, né meu? Lá que é foda. Aqui fez calor, cai chuva de verão, alaga a Marginal e acabou. Ontem foram mais de 7.000 km de congestionamento. Pior que isso, só o fedor de esgoto”. Aí o curitibano lembra da Vicente Machado e não sabe mais continuar a conversa. O Waze paulistano nunca ouviu falar da Avenida Vicente Machado. Repare: o melhor lugar para puxar assunto em São Paulo é justamente dentro de um carro. E a maneira mais assertiva é pedir “posso abrir o vidro?”. Eis a deixa para o paulistano discorrer sobre seu assunto favorito. O motorista vai te contar como ele foi assaltado a menos de dois quilômetros de onde vocês estão: “tinha acabado de pegar uma travessa da Salim Farah Maluf, na Zona Leste”. Não levaram o dinheiro todo porque ele tinha acabado de colocar 700 reais no lixinho do carro. Responda com um “sério?!”. Eram dois, um ficou na moto, o outro vasculhou o carro inteiro, a arma podia ser de brinquedo, mas vai saber. Uma semana antes “apagaram” um colega dele na esquina anterior, onde vocês acabaram de passar, no posto de gasolina atrás do Etna, logo abaixo da passarela dos pedestres, ninguém nem parou pra olhar, o cara tinha filho pequeno, a esposa ficou sabendo quando havia acabado de chegar na casa da mãe dela – em Praia Grande – para passar uns dias, já voltou, agora não sai na rua, tem medo de assalto. Talvez a conversa seja interrompida por alguém do lado de fora da janela do motorista. É um vendedor de porta-celulares, daqueles com ventosa para prender no vidro. “Quanto custa?” Trinta e cinco. “Não, obrigado, pago 20 contos no centro”. Fecha 25. “Tenho 22 trocados”. Já é. Então, esse aqui é mais chique, o meu já tava baleado, fiz um gato nele, agora sim, vou colocar desse lado aqui, dá licença, assim não roubam. Meu irmão foi assaltado semana passada, estava no ponto dele, zona sul, levaram mais de quinhentos contos, deu sorte porque estava na terceira corrida, dia bom ele tira quase dois contos. “À noite refresca aqui também?”. Nessa época? Sem chance, puta calor. Mas agora não faço mais corrida à noite, depois do assalto… Só de dia. Sou engenheiro, fazer Uber está mais viável pra mim. Meu irmão é professor universitário. Ele continua fazendo Uber à noite porque de dia dá aulas. Tenho três sobrinhos. Já passei pra ele a manha de guardar o dinheiro no lixinho, malandro vasculhou meu carro inteiro, irmão, mas não mexeu no lixinho. “Vou ter que abrir a janela”. Dei um baita espirro pra fora, aquele ar-condicionado estava atacando minha rinite, o motorista no carro vizinho me olhou assustado, como se eu tivesse acabado de cuspir os dois pulmões. Dei uma disfarçada, fiquei olhando o rio Pinheiros, um trem passou por nós a vinte por hora, um motoboy passou voando baixo, costurando, buzinando, reparei em uns prédios, todos espelhados, uma marquise com quatro operários lavando as janelas enquanto se miravam no espelho, deviam estar na altura do trigésimo andar, uma bela vista para a Ponte Estaiada refletida no espelho particular deles. O Cesar Tralli transmitia ao vivo, dava as últimas sobre o congestionamento recorde, chamava a menina do tempo, o estúdio da Globo do outro lado da ponte. Eu ali, encerrado naquele Uber, pensando como é louca essa história das diferenças entre duas capitais de estados vizinhos. Em geral, todos estamos abertos para uma conversa descontraída, sob esse aspecto somos irmãos. Mas os curitibanos torram boa parte da grana tentando parar de espirrar, fazendo o nariz parar de escorrer. Paulistanos jogam o dinheiro deles no lixo.

dez
15

Deus me sacuda ou acuda / porque sacudo estou eu / contudo / ou com tudo o que secou ou morreu

Confuso estou com o fuso que pereceu / na espiral infinita do parafuso espanado e sem uso / da engrenagem de um tempo obtuso diante do óbito que sucedeu

Com cada pessoa esquisita / com pressa e aflita / converse e reflita sobre o que aconteceu

Elas dirão das precárias paredes imóveis / das Redes / dos móveis e de tudo o que predominantemente foi seu / parcialmente nosso / paradoxalmente meu.

set
11
Poesia, poesia, poesia, minha inescapável poesia
És esse mal iluminado caminho até os poetas
Tão labiríntica, tão bagunçada, tão crua
A passagem mais longa, sem pistas ou metas
Não há em você direção, compaixão ou companhia
 
Mas o que queres de mim, se eu não sou poeta
Serei, eternamente, um ser imberbe e covarde
Em comum com eles, apenas olho pra lua
Tudo que posso ouvir é esse silêncio que arde
Calada esquizofrenia, quem sabe doença secreta
 
Não conheço, até então, quem te desvende ou revele
Pra mim, você é um profundo e insondável mistério
Talvez seja essa razão porque te apanho na rua
A tua confusa majestade que tanto me tira do sério
Todavia é no teu rumo que minha natureza me impele.
ago
09

Cada dia mais, a minha objeção se torna irrelevante

Restos inúteis de um recato besta, de vaidade

Minhas certezas se confundem com teu corpo insinuante

E o meu pudor penetra a fundo tua obscenidade

 

Quantos passos foram nesse longo asfalto

Quantos tijolos empilhados nesse muro alto

Mais uma peça da tua roupa que desliza até o chão

Mais um pensamentinho sujo integra a nossa coleção

 

E para você tanto faz se frio ou se calor

Não há temperatura nessa onda de torpor

E quando cai a noite enquanto o dia encerra

Calar não mais tem cabimento, quem não grita, berra

 

Eu quero você nua, és o meu próximo poema

Sem “make-up” ou qualquer coisa, nosso ardente casamento

A nós não se aplicam modos nem discernimento

E nessa selva, dentre tantas, és a flor mais obscena.

ago
05

Interessante ouvir o barulho das coisas diante do silêncio na sala de aula. Estamos todos em uma oficina de crônicas, temos que escrever uma, o tempo não é muito.

Tento me concentrar, ouço o barulho da minha própria caneta sobre o papel. A respiração dos colegas, igualmente concentrados, duelando com a distração deles. Queria encontrar minha inspiração, que ela se anunciasse, um suspiro, um apito rouco, distante mesmo, mas nada.

Lembro da crônica sobre o barulho das coisas, onde eu contava sobre ouvir os sons mais inaudíveis: o estalar de um fio de cabelo que desponta sobre a cabeça, unhas crescendo, o discreto espocar de páginas amarelando dentro dos livros, nessa crônica tudo que parecia mudo representava hecatombes sonoras para mim. O deslizar farfalhante da poeira sobre os móveis da minha casa, o agradável som do pisca-pisca de vaga-lumes na amplitude misteriosa e noturna do jardim, a explosão sonora da chegada das estações, cada qual com uma nota diferente, primavera, verão, outono, inverno, Dó, Ré, Mi, Fá. Na crônica eu só não era capaz de ouvir a chegada do amor, envolto na bruma de insondável, insuspeitado silêncio.

E agora, aqui, cercado dos colegas que pinçam suas palavras e idéias, tento ouvir o barulho delas flutuando no ar enquanto evito o tique-taque onomatopaico dos segundos que insistem em me derrubar.

ago
02

Essa manhã foi quase igual a todas as manhãs: saquei o velho casaco do armário. A diferença é que me pareceu mais pesado do que na noite passada, quando pousei-o sobre o cabide. Procurando, encontrei algo pulsando em um dos bolsos. Era uma crônica. Ao retirá-la do bolso, era ela que me fitava, pequeno e delicado espelho de mim. Pontiaguda, cortei-me com ela e sangrei. Meus olhos desviaram, resignados. Devolvi minha crônica ao lugar de origem, meu bolso surrado, retalho do que fora um dia. Vesti o casaco e saí. Já na rua, ao sol, todos olhavam com ansiedade na minha direção, perplexos, curiosos. O reflexo da crônica ali, à partir do chão do bolso do casaco puído, esgarçado, um apêndice flagrante de todo desleixo, toda miséria e todo descaso auto-infligidos. Meu próprio braço encolhia ao tentar ir de encontro à crônica nas profundezas agora quase abissais daquele bolso. Compreendi que ela deixava de me pertencer. Poderosa e cortante, nem mesmo eu poderia mais com ela, havia assumido vida própria.

Por isso arranquei meu velho casaco e entreguei ao primeiro maltrapilho que passava, bêbado e chapado, trôpego, delirante. Vesti sobre ele como se fosse uma majestade de algum reino onde eu escolhera viver. Limpei o sangue das pontas dos dedos na bainha e na lapela do casaco. Olhei nos olhos vívidos, repletos de luz e de dor, daquele homem. Beijei-lhe o anel de ouro que trazia no dedo de uma das mãos e fiquei olhando enquanto se afastava, cambaleante e sujo. Desapareceu entre a luz e as sombras, em meio a soluços e declamações desconexas. Ele era, para mim, uma presença imponente, venerável, um anjo caído sofrendo os efeitos da entrada na terra e no mundo dos mortais, um semideus. Desejei, do fundo do coração, que aquele sujeito louco e encardido vivesse para sempre. Queria que a memória daquela aparição surpreendente flutuasse, perene, pelos anos, ao largo da minha própria existência que sucumbia vertiginosamente.

jul
28

Após tentativas ao computador, pelo método natural, decidi mudar a estratégia. Eu iria parir essa crônica nem que fosse na rua, em meio à comoção dos carros e pessoas, diante da semi-histeria da cidade.

Escolhi o centro de Curitiba para ver se conseguia induzir as primeiras contrações do parto. Fui em direção a uma das regiões por onde flanava aquele autor que eu costumava ler. Descendo pela canaleta da Visconde de Nácar, ganhei a Saldanha Marinho, por onde caminhei até a Santos Dumont, ou Pracinha do Amor, como havia lido nas crônicas. Lá estavam as tipuanas majestosas. Fiquei sob sua sombra, aguardando ser fustigado pelas entranhas. Pensei que dentro de mim existia um texto e eu estava por ser envolto por ele como pela sombra das árvores. Nada aconteceu. Caminhei até o busto do Dumont e reparei que ele tinha um nariz. Alguém devolvera aquele nariz para ele. Bonito, perfilado, um bom trabalho. Mais belo do que o meu, que é torto. Mas tampouco tenho algum artista plástico para esculpir meu nariz à mão. Eu dispersava e precisava me concentrar melhor. Olhei em volta: moradores de rua e seus cobertores, malucos e suas garrafas coloridas, seus cachimbos artesanais, os jovens casais, o cachorro com precisão cirúrgica exterminando as pulgas na unha, nada parecia me instigar a ponto de escrever. Sentei no banco da praça, tinha que fazer parte daquilo, queria entalhar o meu nome sobre a madeira.  Mais adiante, na calçada, suspendi com a ponta do pé um dos paralelepípedos soltos. Haveria de haver algo embaixo que pudesse ser a ignição para a minha nova crônica. Uma colônia de formigas albinas, um salto de sapato de mulher, de uma cafetina, quem sabe. Deixara o salto enquanto corria atrás da paixão da vida dela em desabalada carreira pela Saldanha. Perdeu o salto enquanto alcançava o Amor na pracinha. Mas não havia nada embaixo daquela pedra, a não ser chão batido e o fóssil de uma aranha marrom.

Andei uma quadra na direção da catedral, ia dar à luz no meio da Praça Tiradentes, tendo estações tubo e anjos de concreto como testemunhas do nascimento de um rebento da minha arte.  Antes de chegar lá, encontrei um orelhão depredado. Coladas ao aparelho, dezenas de filipetas com fotos de partes de corpos de mulheres. Abaixo, um nome e número para contato: Cintia, XXXX-6222. Usava lingerie vermelha, mas tinha as unhas delicadamente pintadas de rosa. Romântica, aposto como rosa era a cor favorita dela. O vermelho na lingerie era pelos ossos do ofício, homens são metódicos na vulgaridade. Suzi, xxxx-7457. Sentada diante de uma penteadeira, intuí que se mirava no espelho e imaginei o olhar dela, uma mulher a fitar-se como quem busca a criança que a vida lhe sequestrou, sem pudor ou pedido de resgate. Queria abraçar a Suzi, dizer a ela como a criança ainda estava ali. Sofia, xxxx-6222, mesmo número da Cintia. Shorts jeans desbotados, barra desfiada na altura do início das coxas. Um dia haviam sido calças longas, suas favoritas. Amava usar jeans sempre que saía com o namorado no interior, antes de vir para a capital. Chegando a Curitiba conheceu a Cintia que a apresentou para alguém que poderia ajudá-la a encontrar uma primeira moradia, o primeiro trabalho. Todas aquelas meninas, a aspereza da noite neutralizando a fragilidade dos dias.

Fiz o caminho inverso de volta para casa, pela Saldanha. Uma nuvem gigante estacionou sobre o céu de Curitiba. Sentia frio e o caminho até a Praça Tiradentes havia se convertido sombrio demais.

jul
25

“Você é perecível ao tempo!”, foi o que ela disse. Eu sei que todos nós somos perecíveis, naturalmente. A partir do momento quando nascemos, é certo que passamos a perecer, nossa espécie não foi feita pra durar para sempre, temos prazo de validade. Mas não era a mim, especificamente, que ela se referia, mas ao meu amor por ela, ao nosso relacionamento. Sei disso porque estávamos em meio a uma DR, ou discutindo a nossa relação. Então ela concluiu, por inúmeros motivos dela, que a relação que eu oferecia era perecível. Pensando bem, acho que eu preferia ter sido chamado de canalha, indeciso ou qualquer coisa que o valha. Mas dizer que eu era perecível ao tempo, aquilo ficou na minha cabeça. Fiquei pensando se eu era perecível como uma sardinha fresca, ou como uma rúcula. Isso seria ainda mais terrível se levado em consideração que uma sardinha fresca e uma rúcula não duram uma semana, mesmo na geladeira, e já começam a fazer cheiro, a darem sinal de que o destino delas é o lixo. Para não chegarem a esse estado, precisam ser congeladas ou consumidas quase que imediatamente. Eu não sou perecível ao tempo como uma rúcula, isso não seria crível. Então decidi que a minha relação com ela poderia sim estar exaurindo de alguma forma. Se ela já estava ouvindo o tique-taque rumo ao gongo final do relógio, então eu também atentaria, seguramente a engrenagem estava chiando em algum lugar. Por outro lado, olhando com pragmatismo para a situação, concluí que talvez fosse mesmo perecível, mas, convenhamos, tanto quanto uma acelga. Quem é dono-de-casa ou mora sozinho precisa saber que uma acelga, bem acondicionada, é capaz de durar longas semanas, ao cabo das quais permanece com boa aparência, ótima consistência, cor saudável e segue sendo apetitosa e crocante. Se ainda não sabe, faça o teste. Acelga é uma das melhores verduras para se cozinhar. É possível fazer uma entrada de acelga com gengibre, pimenta dedo de moça e shoyu. Acredite, fica de passar embaixo da mesa. Acelga também vai maravilhosamente no yakisoba. Uma acelga bonita pode enfeitar lindos pratos, seus brotos menores são capazes de substituir a própria vieira e a refeição ganha um toque de classe, criatividade e alegria tanto na apresentação, quanto no sabor inesperado.

“Está vendo? Estou tentando falar sobre nós e você já está divagando, longe!”, disse-me ela, dando as costas e indo embora. Deixou-me sozinho com as minhas reminiscências sobre ser perecível. Não sei nada sobre isso. Só sei que, se fosse para ser assim, eu queria ser uma acelga.