Monstro Animal
TREM QUE PULA, TRACAJÁ, SANGUINOLENTO!

Homem x Máquina

Bem amigos animaizinhos, ratinhos e ratinhas. Após nosso último post, sobre a resiliência, recebemos algumas mensagens pedindo que postássemos um texto, mesmo que antigo, dessa época que mencionamos no post. Pois aí vai um artigo que escrevemos no ano de 2003, sobre a incansável tentativa do homem de se adaptar aos mandos e desmandos do mundo da tecnologia. Acredito que, embora já tenha completado 7 anos e salvaguardadas as proporções, o assunto segue sendo atual. Ólha:

Homem x Máquina

 

Um dia destes escrevi um artigo (“Comunicação Cifrada Ou CC”) que versava sobre o homem comum aprendendo, aos trancos e barrancos, a se adaptar à linguagem extremamente objetiva da era do email. O tema se referia justamente às formas que encontramos para nos comunicarmos com nossos semelhantes via computador. Desafio suficiente? Como diria uma amiga, jornalista em São Paulo: “Nécas”. E quando a comunicação tem que se dar entre homem x máquina? Aí sim vemos que o buraco é muito mais embaixo.

 Faça um exercício de memória: alguma vez alguma máquina de café já “comeu” uma moedinha sua? Como você se sentiu? Alguma vez alguma porta giratória de banco já te fez retornar tantas vezes que você teve que tirar até a sua aliança de ouro que você não tira nem pra tomar banho? Qual foi a cor do seu sorriso para as pessoas que te aguardavam na fila? Alguma vez você já tentou fazer um saque de um Caixa Eletrônico às 21h50 e ele te disse, curto e grosso, “Terminal Em Manutenção”? O que você falou pra ele? Pois é. Em momentos meigos assim eu sempre me lembro do Pato Donald quando tinha aqueles acessos de cólera e arrancava as próprias penas. E eu que nem tenho penas.

 Legal foi o que me aconteceu outro dia. Enviei um email super normal, nada de anexos ou qualquer coisa que pudesse incomodar um servidor, por exemplo, para um amigo que trabalha em uma grande instituição financeira. Eis que meu emailzinho de 2k retorna com uma mensagem dizendo: “Message Undeliverable. Fatal Error # 204: palavras obscenas”. Não sou de palavrões, por isso pensei “que merda é essa?” e liguei para o meu amigo. E não é que ele me confirmou que o servidor deles, de fato, foi programado para rejeitar palavras, digamos assim, de baixo calão? Te juro. Quem quiser xingar um gerente desse banco tem que ser por telefone ou pessoalmente. Por email, desista.

 Outra muito boa: sou sócio de uma locadora que funciona 24H. Quando fui devolver um DVD o balconista entrou com o código no computador e anunciou “sete reais”. Quando informei que já havia pago na retirada ele me disse que o sistema estava cobrando mais uma diária pelo atraso. Não poderia haver atraso porque eu tinha feito a locação no dia anterior. Eis que a pecinha diante do computador, ostentando um crachá que lia Marcos Para Melhor Servi-lo, me informou que eu tinha até meia noite pra devolver o DVD e, como o relógio digital do computador marcava 0:04, o sistema – sempre ele – não aceitava a devolução sem cobrar uma diária extra. Perguntei se eu poderia conversar com o sistema dele e, diante da recusa, paguei logo os sete paus para o humanóide atrás do crachá e saí batido procurando pelo Neo, do Matrix. Eu queria tomar a pílula vermelha.

 Uma situação esdrúxula como essa me faz pensar que o homem muitas vezes transfere para a máquina a sua incapacidade de lidar com situações que deveriam ser de sua responsabilidade. O Marcos Para Melhor Servi-lo é apenas um exemplo inofensivo sobre o que pode acontecer. Trata-se de um balconista entediado usando o software disponível para justificar sua preguiça mental e sua falta de iniciativa no momento crucial de manter o cliente. Ou então é a empresa onde ele trabalha que aterroriza os colaboradores e os engessa à partir de softwares que eles não conseguem transpor. Transporte-se esse exemplo para uma multinacional de grande porte, onde um exército de colaboradores assume essa atitude no atendimento ao público, e o resultado será uma catastrófica fábrica de humanóides em potencial. É evidente que os softwares, a tecnologia, enfim, as máquinas em si, ajudam o homem e viabilizam o progresso. O problema é quando deixamos de adequar a comunicação para, igualmente, facilitar a vida do cidadão comum. O perigo surge quando instituições globais se fazem valer do poder da tecnologia para punir ou para segregar seus próprios clientes. Exemplos desse fato abundam entre as classes mais favorecidas e com acesso ao mundo digital e eletrônico, o que não dizer sobre as menos favorecidas. A segregação aumenta em proporção direta ao mergulho em direção às profundidades abissais das classes mais baixas. Por isso hoje tanto se ouve falar sobre “Inclusão Digital”. Isso significa tornar tangível a comunicação entre o homem simples e a máquina ou pela máquina. Nada mais. Ou nada menos. Truncar essa comunicação se fazendo valer dos recursos digitais e tecnológicos não é chique, não é descolado, é injusto, desrespeitoso, desumano e, por quê não dizer, ilegal. Por isso, o desafio é fazer valer o fato de que o homem, egresso de onde vier, tem garantido o direito ao acesso à comunicação eletrônica e que essa forma de comunicação seja tão emparelhada quanto possível com a humana. É preciso nivelar a comunicação das máquinas para a realidade do homem e não o inverso.

 De modo a modo, as máquinas são extremamente objetivas e suas mensagens são tão contundentes que nos vemos boicotados em muitos momentos. A questão é: será que este boicote não é induzido pelo interesse de poucos controllers? Hoje se delega às máquinas o poder de controlar a nossa disciplina. Em troca de serviços cada vez mais indispensáveis o homem moderno se rende aos desígnios eletrônicos e, por isso, muitas vezes, flagra-se incondicionalmente exposto a caprichos cibernéticos. Estamos no caminho de nos tornarmos cyber-freaks. O homem moderno não vive sem incorporar as máquinas e a tecnologia à sua rotina. Trata-se de condição básica para a sobrevivência nas cidades, onde a maioria de nós consegue encontrar os meios para prosperar na vida. Por outro lado existe essa ironia que é o fato das máquinas, vez por outra, ditarem como deve ser o comportamento do homem contemporâneo. Sem perceber, estamos também sendo adestrados por elas para convivermos não apenas com a tecnologia, mas também sob os mandamentos da comunicação eletrônica, sempre irremediável, ao menos no sentido prático do dia-a-dia que, afinal de contas, é o que nos importa. Ou não? Discordas? Então vá bater boca com o seu PC quando ele lhe mandar uma mensagem de “Desculpe, esta operação não pode ser realizada. Prazo expirado em tal dia, tal hora e tal ano”. Sim, porque o Mandamento Número Um da Comunicação Online é: “Não Atrasarás, Irmão!”.

 Enquanto não encamparmos um movimento globalmente comprometido de inclusão digital, nós, elite social e intelectual, seguiremos comodamente cedendo ao ritmo do progresso desmedido imposto pelos desenvolvedores de softwares que trabalham sob a batuta de poucos controllers, tão tiranos quanto vaidosos. Seguiremos tendo emails devolvidos porque deixamos escapar um “merda” na mensagem e porque alguém um dia ditou que palavras obscenas não passam pelo filtro do servidor da multinacional que representa. Teremos meia dúzia de poderosos burocratas digitais brincando de diabo contra hordas de operários eternamente se enfileirando nos bancos porque são os excluídos digitais, os habitantes do Purgatório do Milênio. Sob uma espécie de “Feudalismo Digital”, seremos todos vassalos da Tecnologia da Comunicação a serviço exclusivo do capital de poucos senhores. Seguiremos cada vez mais estressados com nossos computadores pessoais e com máquinas que deveriam nos trazer segurança ou facilitar nossas vidas, como as portas giratórias dos bancos que, ironicamente, travam mais quando o cidadão tem cara de Zé Povinho. Conviveremos passivamente com o eterno estresse dos caixas eletrônicos que se recusam a pagar o nosso suado dinheirinho quando buscamos justamente relaxar um pouco. Diante de tanto estresse já posso vislumbrar um futuro repleto de mulheres de cabelos cada vez mais desgrenhados e pele mais feia. Vejo homens broxando como nunca. Mas nem tudo estará perdido porque, ao broxar, teremos aprendido com as máquinas a nos comunicarmos como elas e diremos para as nossas parceiras humanóides: “Terminal Em Manutenção”, viraremos para o lado e apagaremos.

 

Autor: esse Monstro que vos posta.

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