Monstro Animal
TREM QUE PULA, TRACAJÁ, SANGUINOLENTO!

Ceticismo, pragmatismo

De tudo na vida, uma coisa me assusta: tenho medo de tornar-me um cético. Tenho medo de tornar-me cético com relação aos assuntos de amor. Medo de deixar a poesia morrer. Receio de duvidar desses amores de novela. Medo de evitar as paixões e os rompantes. Tenho medo de que, com os anos, o ceticismo com relação aos sentimentos mais efêmeros, mais doces e mais suaves se instale fazendo aquele baque da pedra sobre o papel. O carimbo da rotina burocrática sobre o papel de seda, o papel de carta perfumado que recebe uma rubrica de OK, próximo assunto. Esse pragmatismo que me envolve cada dia mais me assusta. Minha reação cada dia mais robótica com as pequenas surpresas que mais me parecem uma repetição de alguma coisa que eu nem sei o que é, mas que parece-me familiar de alguma forma. Aquela sensação de já ter pisado 10 vezes sobre o asfalto de uma rua onde nunca estive, isso me assombra. A indiferença diante do novo, eu tento lutar contra isso, eu luto para que a indiferença não me assole, não tome conta, não me leve de assalto. Eu não quero ser pragmático, não desejo ser cético. Prefiro ser nocauteado nessa vida, não tenho vontade de morrer aos poucos. Não quero abrir os olhos devagar, prefiro estalá-los. Não sou do tipo que desce escadas escorando no corrimão, não sei o que é chegar ao topo e não olhar pra baixo. Eu sinto falta do frio na barriga, estou sempre em busca de alguma taquicardia, de mãos suadas, de um par de sobrancelhas que me desafiem, de uma ombrada que me faça girar em torno de mim, de uma voz misteriosa que me chame e que eu não saiba de onde vem, de um raio que caia perto de mim, de um spray inesperado de água, de um dique, de um pequeno incêndio, um eco, uma queda brusca de temperatura, uma virada de tempo, um cão rosnando, mostrando os dentes, cerrando a mandíbula e que, ao sentir a exasperação do ar que brota de minhas narinas, me dê as costas e saia correndo de mim. No dia em que eu realmente decidir limpar a poeira dos meus sapatos, quero ser surpreendido pelo brilho do ouro sob as minhas solas. Quem sabe um dia, ao olhar-me no espelho, eu me reconheça. Mas não por agora.

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2 Respostas to “Ceticismo, pragmatismo”

  1. Me identifiquei MUITO!


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