Monstro Animal
TREM QUE PULA, TRACAJÁ, SANGUINOLENTO!

Acelga (crônica criada durante a Oficina de Crônica do Luis Henrique Pellanda)

“Você é perecível ao tempo!”, foi o que ela disse. Eu sei que todos nós somos perecíveis, naturalmente. A partir do momento quando nascemos, é certo que passamos a perecer, nossa espécie não foi feita pra durar para sempre, temos prazo de validade. Mas não era a mim, especificamente, que ela se referia, mas ao meu amor por ela, ao nosso relacionamento. Sei disso porque estávamos em meio a uma DR, ou discutindo a nossa relação. Então ela concluiu, por inúmeros motivos dela, que a relação que eu oferecia era perecível. Pensando bem, acho que eu preferia ter sido chamado de canalha, indeciso ou qualquer coisa que o valha. Mas dizer que eu era perecível ao tempo, aquilo ficou na minha cabeça. Fiquei pensando se eu era perecível como uma sardinha fresca, ou como uma rúcula. Isso seria ainda mais terrível se levado em consideração que uma sardinha fresca e uma rúcula não duram uma semana, mesmo na geladeira, e já começam a fazer cheiro, a darem sinal de que o destino delas é o lixo. Para não chegarem a esse estado, precisam ser congeladas ou consumidas quase que imediatamente. Eu não sou perecível ao tempo como uma rúcula, isso não seria crível. Então decidi que a minha relação com ela poderia sim estar exaurindo de alguma forma. Se ela já estava ouvindo o tique-taque rumo ao gongo final do relógio, então eu também atentaria, seguramente a engrenagem estava chiando em algum lugar. Por outro lado, olhando com pragmatismo para a situação, concluí que talvez fosse mesmo perecível, mas, convenhamos, tanto quanto uma acelga. Quem é dono-de-casa ou mora sozinho precisa saber que uma acelga, bem acondicionada, é capaz de durar longas semanas, ao cabo das quais permanece com boa aparência, ótima consistência, cor saudável e segue sendo apetitosa e crocante. Se ainda não sabe, faça o teste. Acelga é uma das melhores verduras para se cozinhar. É possível fazer uma entrada de acelga com gengibre, pimenta dedo de moça e shoyu. Acredite, fica de passar embaixo da mesa. Acelga também vai maravilhosamente no yakisoba. Uma acelga bonita pode enfeitar lindos pratos, seus brotos menores são capazes de substituir a própria vieira e a refeição ganha um toque de classe, criatividade e alegria tanto na apresentação, quanto no sabor inesperado.

“Está vendo? Estou tentando falar sobre nós e você já está divagando, longe!”, disse-me ela, dando as costas e indo embora. Deixou-me sozinho com as minhas reminiscências sobre ser perecível. Não sei nada sobre isso. Só sei que, se fosse para ser assim, eu queria ser uma acelga.

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