Monstro Animal
TREM QUE PULA, TRACAJÁ, SANGUINOLENTO!

Cintia, Suzi, Sofia

Após tentativas ao computador, pelo método natural, decidi mudar a estratégia. Eu iria parir essa crônica nem que fosse na rua, em meio à comoção dos carros e pessoas, diante da semi-histeria da cidade.

Escolhi o centro de Curitiba para ver se conseguia induzir as primeiras contrações do parto. Fui em direção a uma das regiões por onde flanava aquele autor que eu costumava ler. Descendo pela canaleta da Visconde de Nácar, ganhei a Saldanha Marinho, por onde caminhei até a Santos Dumont, ou Pracinha do Amor, como havia lido nas crônicas. Lá estavam as tipuanas majestosas. Fiquei sob sua sombra, aguardando ser fustigado pelas entranhas. Pensei que dentro de mim existia um texto e eu estava por ser envolto por ele como pela sombra das árvores. Nada aconteceu. Caminhei até o busto do Dumont e reparei que ele tinha um nariz. Alguém devolvera aquele nariz para ele. Bonito, perfilado, um bom trabalho. Mais belo do que o meu, que é torto. Mas tampouco tenho algum artista plástico para esculpir meu nariz à mão. Eu dispersava e precisava me concentrar melhor. Olhei em volta: moradores de rua e seus cobertores, malucos e suas garrafas coloridas, seus cachimbos artesanais, os jovens casais, o cachorro com precisão cirúrgica exterminando as pulgas na unha, nada parecia me instigar a ponto de escrever. Sentei no banco da praça, tinha que fazer parte daquilo, queria entalhar o meu nome sobre a madeira.  Mais adiante, na calçada, suspendi com a ponta do pé um dos paralelepípedos soltos. Haveria de haver algo embaixo que pudesse ser a ignição para a minha nova crônica. Uma colônia de formigas albinas, um salto de sapato de mulher, de uma cafetina, quem sabe. Deixara o salto enquanto corria atrás da paixão da vida dela em desabalada carreira pela Saldanha. Perdeu o salto enquanto alcançava o Amor na pracinha. Mas não havia nada embaixo daquela pedra, a não ser chão batido e o fóssil de uma aranha marrom.

Andei uma quadra na direção da catedral, ia dar à luz no meio da Praça Tiradentes, tendo estações tubo e anjos de concreto como testemunhas do nascimento de um rebento da minha arte.  Antes de chegar lá, encontrei um orelhão depredado. Coladas ao aparelho, dezenas de filipetas com fotos de partes de corpos de mulheres. Abaixo, um nome e número para contato: Cintia, XXXX-6222. Usava lingerie vermelha, mas tinha as unhas delicadamente pintadas de rosa. Romântica, aposto como rosa era a cor favorita dela. O vermelho na lingerie era pelos ossos do ofício, homens são metódicos na vulgaridade. Suzi, xxxx-7457. Sentada diante de uma penteadeira, intuí que se mirava no espelho e imaginei o olhar dela, uma mulher a fitar-se como quem busca a criança que a vida lhe sequestrou, sem pudor ou pedido de resgate. Queria abraçar a Suzi, dizer a ela como a criança ainda estava ali. Sofia, xxxx-6222, mesmo número da Cintia. Shorts jeans desbotados, barra desfiada na altura do início das coxas. Um dia haviam sido calças longas, suas favoritas. Amava usar jeans sempre que saía com o namorado no interior, antes de vir para a capital. Chegando a Curitiba conheceu a Cintia que a apresentou para alguém que poderia ajudá-la a encontrar uma primeira moradia, o primeiro trabalho. Todas aquelas meninas, a aspereza da noite neutralizando a fragilidade dos dias.

Fiz o caminho inverso de volta para casa, pela Saldanha. Uma nuvem gigante estacionou sobre o céu de Curitiba. Sentia frio e o caminho até a Praça Tiradentes havia se convertido sombrio demais.

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