Monstro Animal
TREM QUE PULA, TRACAJÁ, SANGUINOLENTO!

A Crônica

Essa manhã foi quase igual a todas as manhãs: saquei o velho casaco do armário. A diferença é que me pareceu mais pesado do que na noite passada, quando pousei-o sobre o cabide. Procurando, encontrei algo pulsando em um dos bolsos. Era uma crônica. Ao retirá-la do bolso, era ela que me fitava, pequeno e delicado espelho de mim. Pontiaguda, cortei-me com ela e sangrei. Meus olhos desviaram, resignados. Devolvi minha crônica ao lugar de origem, meu bolso surrado, retalho do que fora um dia. Vesti o casaco e saí. Já na rua, ao sol, todos olhavam com ansiedade na minha direção, perplexos, curiosos. O reflexo da crônica ali, à partir do chão do bolso do casaco puído, esgarçado, um apêndice flagrante de todo desleixo, toda miséria e todo descaso auto-infligidos. Meu próprio braço encolhia ao tentar ir de encontro à crônica nas profundezas agora quase abissais daquele bolso. Compreendi que ela deixava de me pertencer. Poderosa e cortante, nem mesmo eu poderia mais com ela, havia assumido vida própria.

Por isso arranquei meu velho casaco e entreguei ao primeiro maltrapilho que passava, bêbado e chapado, trôpego, delirante. Vesti sobre ele como se fosse uma majestade de algum reino onde eu escolhera viver. Limpei o sangue das pontas dos dedos na bainha e na lapela do casaco. Olhei nos olhos vívidos, repletos de luz e de dor, daquele homem. Beijei-lhe o anel de ouro que trazia no dedo de uma das mãos e fiquei olhando enquanto se afastava, cambaleante e sujo. Desapareceu entre a luz e as sombras, em meio a soluços e declamações desconexas. Ele era, para mim, uma presença imponente, venerável, um anjo caído sofrendo os efeitos da entrada na terra e no mundo dos mortais, um semideus. Desejei, do fundo do coração, que aquele sujeito louco e encardido vivesse para sempre. Queria que a memória daquela aparição surpreendente flutuasse, perene, pelos anos, ao largo da minha própria existência que sucumbia vertiginosamente.

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