Monstro Animal
TREM QUE PULA, TRACAJÁ, SANGUINOLENTO!

Sobre Rinite e Dinheiro No Lixo (ou Curitiba x São Paulo)

Quem diz que o curitibano não gosta de falar com estranhos é porque não sabe puxar assunto. Até no elevador o nativo da capital paranaense não resiste a um papo para quebrar o gelo. Quer ver? Comente sobre a meteorologia. Não há em Curitiba quem não aprecie um relatório de última hora sobre o boletim do tempo. Mas seja minimamente criativo. Evite abrir com um “frio, né?”. Você vai receber, no máximo, um “aham” ou um silêncio ainda mais gelado do que a temperatura em Celsius. Seja original, abra com “São Pedro faz algazarra por aqui, não? Essa cidade é tipo o penico dele”. A resposta será, muito provavelmente, um sorriso conspiratório, seguido de “pois é, haja cabide”. Pronto. Daí pra frente você pode seguir falando sobre o seu guarda-roupas, contar quantas vezes deixou de levar o carro para lavar e segredar sobre o último boletim médico emitido pelo alergista. Entre o térreo e o décimo andar pode ser que vocês já tenham trocado os contatos dos seus médicos de confiança para doenças respiratórias, além de uma ou outra receita para crises de rinite, coriza acentuada e truques para combater o bolor dentro do armário. Não concorda? Sou capaz de apostar um saco inteiro de naftalina. Um frasco de Sorine. Um inalador de última geração.

Agora, em São Paulo é diferente. Se você for curitibano e puxar assunto sobre o tempo, vai ouvir logo um “você é do sul, né meu? Lá que é foda. Aqui fez calor, cai chuva de verão, alaga a Marginal e acabou. Ontem foram mais de 7.000 km de congestionamento. Pior que isso, só o fedor de esgoto”. Aí o curitibano lembra da Vicente Machado e não sabe mais continuar a conversa. O Waze paulistano nunca ouviu falar da Avenida Vicente Machado. Repare: o melhor lugar para puxar assunto em São Paulo é justamente dentro de um carro. E a maneira mais assertiva é pedir “posso abrir o vidro?”. Eis a deixa para o paulistano discorrer sobre seu assunto favorito. O motorista vai te contar como ele foi assaltado a menos de dois quilômetros de onde vocês estão: “tinha acabado de pegar uma travessa da Salim Farah Maluf, na Zona Leste”. Não levaram o dinheiro todo porque ele tinha acabado de colocar 700 reais no lixinho do carro. Responda com um “sério?!”. Eram dois, um ficou na moto, o outro vasculhou o carro inteiro, a arma podia ser de brinquedo, mas vai saber. Uma semana antes “apagaram” um colega dele na esquina anterior, onde vocês acabaram de passar, no posto de gasolina atrás do Etna, logo abaixo da passarela dos pedestres, ninguém nem parou pra olhar, o cara tinha filho pequeno, a esposa ficou sabendo quando havia acabado de chegar na casa da mãe dela – em Praia Grande – para passar uns dias, já voltou, agora não sai na rua, tem medo de assalto. Talvez a conversa seja interrompida por alguém do lado de fora da janela do motorista. É um vendedor de porta-celulares, daqueles com ventosa para prender no vidro. “Quanto custa?” Trinta e cinco. “Não, obrigado, pago 20 contos no centro”. Fecha 25. “Tenho 22 trocados”. Já é. Então, esse aqui é mais chique, o meu já tava baleado, fiz um gato nele, agora sim, vou colocar desse lado aqui, dá licença, assim não roubam. Meu irmão foi assaltado semana passada, estava no ponto dele, zona sul, levaram mais de quinhentos contos, deu sorte porque estava na terceira corrida, dia bom ele tira quase dois contos. “À noite refresca aqui também?”. Nessa época? Sem chance, puta calor. Mas agora não faço mais corrida à noite, depois do assalto… Só de dia. Sou engenheiro, fazer Uber está mais viável pra mim. Meu irmão é professor universitário. Ele continua fazendo Uber à noite porque de dia dá aulas. Tenho três sobrinhos. Já passei pra ele a manha de guardar o dinheiro no lixinho, malandro vasculhou meu carro inteiro, irmão, mas não mexeu no lixinho. “Vou ter que abrir a janela”. Dei um baita espirro pra fora, aquele ar-condicionado estava atacando minha rinite, o motorista no carro vizinho me olhou assustado, como se eu tivesse acabado de cuspir os dois pulmões. Dei uma disfarçada, fiquei olhando o rio Pinheiros, um trem passou por nós a vinte por hora, um motoboy passou voando baixo, costurando, buzinando, reparei em uns prédios, todos espelhados, uma marquise com quatro operários lavando as janelas enquanto se miravam no espelho, deviam estar na altura do trigésimo andar, uma bela vista para a Ponte Estaiada refletida no espelho particular deles. O Cesar Tralli transmitia ao vivo, dava as últimas sobre o congestionamento recorde, chamava a menina do tempo, o estúdio da Globo do outro lado da ponte. Eu ali, encerrado naquele Uber, pensando como é louca essa história das diferenças entre duas capitais de estados vizinhos. Em geral, todos estamos abertos para uma conversa descontraída, sob esse aspecto somos irmãos. Mas os curitibanos torram boa parte da grana tentando parar de espirrar, fazendo o nariz parar de escorrer. Paulistanos jogam o dinheiro deles no lixo.

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