Monstro Animal
TREM QUE PULA, TRACAJÁ, SANGUINOLENTO!

maio
31

De tudo ao teu respeito é essa imperfeição que instiga e que desorienta.

Desde as pontes suspensas no ar que nos trazem não sei aonde

Tua presença sibilante e rarefeita, o corpo pequeno, amável, autossuficiente

Todas as guinadas e solavancos nos ejetaram ao sabor da nossa imaginação

Colocaram-me diante dos teus pezinhos experientes, tatuados de caminhos

A rosa dos ventos que é a sola dos teus pés focados em dispersas direções

Teu sorriso onipresente, teu linguajar fluente

Do desenho da tua boca insana até o teu beijo quente

Serão meses de espera, noites inválidas, feriados inteiros em vão

Tuas mãos, teu chão, tua linha do tempo

Todos os lugares onde você esteve e eu não

Essa sintonia sempre solta no ar, no desenho disforme do fogo

Na superfície acidentada da terra, na água salgada e turva do mar

Você que nunca diz sempre, amiúde talvez

Eu, duas vezes por ano

Você, cada dia do mes

A minha casa no alto, a tua estrada na soleira de uma curva imperfeita e infinita

A gente se vê e se observa de longe, nossas pontes seguem suspensas no ar

Minha bagunça não pretende rearranjar o teu rumo

Mas a tua aquarela é capaz de me redesenhar.

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jan
11
Hoje a notícia da morte do David Bowie me jogou em uma espécie de limbo. Passei longos minutos olhando para a notícia e preocupado com o período que o mundo contemporâneo atravessa. Um mal que nos coloca praticamente na fria maca de uma UTI existencial: o planeta e a sociedade, como os conhecíamos, vêm sendo assolados por um processo de “Enfeiamento” e “Desinteressância” agudo. Podem me chamar de louco, mas, na minha singela opinião, estamos ficando mais feios e menos interessantes com o passar dos anos. Estamos na UTI da beleza estética, como a vislumbramos outrora. Respiramos por aparelhos em tudo – ou quase – que se refere à criação artística, cotocos que temos nos demonstrado em nossa criatividade e originalidade. Somos anões se comparados ao que já fomos, em termos de apego cultural. Enquanto isso, entram em falência o nosso senso de crítica e de contraposição, que mínguam tanto quanto a força dos membros daqueles fisicamente paralíticos. Estamos cada dia mais cegos, surdos e mudos diante da feiúra que desce sobre as nossas cabeças ocas. Pior, principiamos a nos encaixar nessa densa bruma de mau-gosto, tornando-nos almas exaustas, prostradas e senis ao longo dos anos que deveriam marcar o despontamento da nossa maturidade espiritual.
 
Enquanto lia sobre as circunstâncias do passamento do Bowie, e me entristecia e sentia um deserto crescer em algum lugar entre a minha cabeça e as minhas canelas, me sobressaltei com o pensamento de “quem vai preencher o vazio que ele está deixando?”. A única resposta coerente que me ocorreu é que somente a própria arte do Camaleão do rock pode ser capaz desse feito. Ela é tão ampla e tão atemporal que talvez siga se bastando ao longo de algumas décadas ainda. É tipo Freddie Mercury, Luciano Pavarotti, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Victor Hugo, John Fante, Rimbaud, Leminski, Michelângelo, Basquiat, Martin Luther King, Oscar Niemeyer. As obras e legados de seres iluminados como eles dificilmente chegarão a um cabo. Mas os nossos gênios estão se extinguindo por toda parte enquanto a horda de pop-imbecis com poder de influência segue nos assolando em ritmo crescente. Morre Freddie Mercury, por exemplo, e nasce Justin Bieber. Adeus Martin Luther King! Olá Kim Jong-un! E assim se arrasta a humanidade, feito uma fila de mortos-vivos tentando se equilibrar, na medida do impossível, sobre essa equação funesta, o quê dizer? Nem vou entrar nos nomes que infestam nossa política doméstica. Não vamos pormenorizar e citar os nomes da rênca que solta a voz nas pop-rádios brasileiras. Sim, porque sou brasileiro, mas há momentos quando eu preferia ser um tatu bola pra sair rolando sem passaporte.
 
Somos péssimos poetas porque a poesia definha. Músicos medíocres porque a música se converte em uma mistura de gangrena com cancro mole, catapora, cachumba, câncer e disritmia. Nosso samba pagodeia, nossa música caipira de raiz foi para as universidades e resolveu se travestir de “sertanejo-universitário”, como se o homem sertanejo do sertão brasileiro tivesse abandonado sua sabedoria popular e secular para se render aos lépo-lépos nas festas da humilde residência do Teló. Aliás, falando nele, li que declarou que nem ele mesmo suporta se ouvir. O que me lembrou de um grande amigo e produtor de sucesso nesse mesmo gênero musical que me disse pessoalmente: “Andrézão, a música que eu produzo não é a música que escuto no meu carro”. Oi?? Mas é… E assim caminha a humanidade. O mundo, eu acho, se acaba sem extinguir. Tem a extinção dos dinossauros, por exemplo, considerado como o fim do mundo, de uma era. Acho mesmo que o mundo já acabou muitas outras vezes em diversos lugares. Se um grupo de crianças morre de fome ou deixa de ter acesso à educação e à cultura em prol de um ou dois carcamanos egoístas, o mundo ali acabou. O mundo está acabando para nós aqui no Brasil, está acabando para os sírios e em tantas outras esferas em tantos lugares diferentes.
 
Enfim, voltando para a Cultura, estamos emagrecendo, definhando. É evidente que existem exceções, ainda há fontes de água cristalina brotando dos deltas mais preciosos. Em geral, no entanto, enquanto o mundo desaba nesse labirinto de vaidades e futilidades, nós estamos ficando bem mais feios e muito menos interessantes.
 
Encerro com o link para “Underground”, tema composto pelo David Bowie e mais um belo momento de inspiração desse grande Artista para o filme Labirinto, no qual ele atuou e também assinou a trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=D2kPnoSolq0
dez
31

4, 3, 2, 1… Vivaaaaaaaa!

Ao espocar das garrafas todos ergueram suas taças em um grande e alegre brinde coletivo. A noite estava calorenta e, enquanto as pessoas se abraçaram e desejaram os melhores votos, ótimas vibrações entre olhares e sorrisos amistosos, Arnaldo beijou a esposa amorosamente, tocou-lhe os cabelos com a mão e olhou por cima do ombro dela. Enroscaram-se em um longo abraço. Finalmente se desenredaram e ele mirou o olhar em volta. Abandonou a taça sobre uma mesa de canto e saiu caminhando entre as pessoas até alcançar a sala contígua. Ao fundo desse cômodo praticamente vazio, candidamente iluminado pela luz das velas e pelo pisca-pisca de um pinheiro solitário de natal, a Menina. Estava de costas, alheia aos familiares e amigos que seguiam brindando alegremente na outra sala. Tinha os olhos fixos no vidro da grande janela que dava para o jardim da casa. A noite estava enluarada e Arnaldo sentiu uma onda de alegria percorrer-lhe de cima abaixo. Ele desconhecia amor maior do que aquele que nutria pela figura diante da janela. Aproximou-se em mudo silêncio, respeitava cada pequeno pensamento que acolhia a Menina naquele especial instante, se fosse despertá-la seria suavemente, delicado sopro de vida. Por isso caminhou vagarosamente até o lado dela, que tinha os olhos estalados como um mangá. Olhos que brilhavam diante do contraste de estrelas e céu. Dali não era possível ver a lua, mas ela flutuava na noite morna e a luz desse luar atravessava as copas das árvores, formando um quebra-cabeças celestial sobre o solo de areia da Ilha.

Oi, meu Amor, Feliz ano novo!

A vozinha dela saiu rouca, infantil, encantadora:

O ano novo chegou, papai?

Sim, acabou de chegar.

Ela comprimiu os lábios, frustrada, os olhos todavia vidrados na noite lá fora antes de seguir pensando alto:

Puxa! Eu não vi…

Arnaldo conhecia a Menina e antecipara que era isso que ela fazia diante daquela janela.

Vem aqui, meu Amor.

Arnaldo a suspendeu no colo, beijou-lhe a face, sorriu para ela e a colocou sentada sobre o braço de uma poltrona. Percebeu que a expressão dela seguia intrigada, o olhar insistindo em voltar para o jardim.

Vamos tirar essas sandálias.

De joelhos, ele removeu as sandálias dos dois pezinhos e olhou de volta, sorrindo para a filha:

Meu amor, tem coisas que a gente enxerga melhor com os olhos fechados. Quer que eu te mostre?

A Menina finalmente sorriu, ainda intrigada, curiosa, e acenou positivamente com a cabeça.

Então feche os olhos, me dê a mão e venha.

Pai e filha irromperam casa afora e noite adentro pela porta da frente. A Menina sentiu vontade de abrir os olhos ao tocar a areia fresca com os pés descalços, mas manteve-os cerrados enquanto seguia conduzida pela mão de Arnaldo.

Para enxergar de olhos fechados, existem alguns segredos. A primeira coisa é não ter medo. Confie em você e em mim. Lembre-se que a noite estava clara enquanto você olhava pela janela e ela não escureceu só porque você fechou os olhos. Nós saímos da casa e agora podemos sentir a brisa, você sente ela?

Sim.

Onde?

No meu rosto, nos cabelos.

É isso, meu Amor, a brisa está te tocando, embora você não possa vê-la. Você sabe para onde estamos indo?

Para a praia?

Sim, estamos entrando nela agora. E como você sabe?

Por causa do barulho do mar.

Exatamente. E você consegue sentir o cheiro dele também?

Aham… Eu posso abrir os meus olhos agora?

Por quê? Você está com medo?

Não.

Então continue com eles fechados. Lembre-se que tem coisas…

Agora foi a vez da menina repetir o que Arnaldo dissera:

… que a gente enxerga melhor com os olhos fechados.

Isso, meu Amor. É isso que eu quero te mostrar. Por isso vou soltar a sua mão, mas estarei bem aqui, no mesmo lugar, bem ao seu lado, tá?

Tá bom.

Continue caminhando comigo, estou aqui, somos valentes.

A Menina sentiu um frio na barriga ao seguir caminhando ao lado de Arnaldo, mas manteve as pálpebras apertadas enquanto escutava o barulho das ondas aumentar. Sob os pés, a areia ficou mais dura, mais gelada, mais úmida, até que os pezinhos começaram a afundar vagarosamente, quase até os tornozelos. Finalmente sentiu que a água do mar chegava até eles em um vai-e-vem sonoro, farfalhante. Sentiu a espuma lhe roçar os tornozelos e intuía que o pai estava ali, bem ao lado dela. Eles pararam onde a areia encontrava o mar e Arnaldo finalmente se postou atrás da filha e pousou as mãos nos ombros dela, delicadamente. Distante, a percussão de uma roda de samba soava bela, melodiosa, dava para ouvir vozes entoando as canções. Após alguns instantes de silenciosa e cega contemplação, ele disse para ela:

Agora você pode abrir os olhos, meu Amor.

A Menina obedeceu. A visão que ela teve foi uma espécie de milagre e ela carregaria a lembrança daquele instante para o resto da vida dela. Um mar imenso sob uma noite estrelada, enluarada, o reflexo da lua percorrendo a superfície da água salgada desde o horizonte até os pés descalços dela e do pai, que a mantinha segura pelos ombros. Na parte mais distante do horizonte havia uma infinidade de pequenas luzes amarelas que pareciam querer se misturar com as estrelas do firmamento. Ela sabia que eram navios muito longe, porém visíveis à partir das luzinhas. Aquela praia lhe era familiar, já estivera ali muitas vezes, de dia e mesmo à noite, mas nunca havia olhado daquela maneira tão surpreendente. À esquerda deles, no final da pequena praia, chamada Praia de Fora, elevava-se um morro íngreme, com cerca de trezentos ou quatrocentos metros de altura. No cume desse morro, um farol e, no topo do farol, a luz que girava brilhando forte, nítida, sinalizando para os navios que ali estava a Ilha do Mel, no estado do Paraná. Era o Farol Das Conchas e a Menina seguiu em silêncio, sob efeito de um mudo e inesquecível deslumbramento. Arnaldo cuidou para que seguissem assim por um longo tempo antes de perguntar a ela:

Está vendo, meu Amor?

Ela apenas acenou que “sim” com a cabecinha, os cabelos soltos, recebendo a maresia, os pés descalços enterrados na areia sob a água do mar.

É o ano novo.

Ele é lindo, papai!

Sim, meu Amor, é exuberante. Ele chegou aqui agora como chegou em muitos lugares no mundo inteiro e seguirá chegando a outros lugares para todas as pessoas, não importa onde cada um esteja, se na praia, no deserto, na fazenda ou na cidade. O mais importante não é a chegada dele em si, mas a maneira como a gente se prepara para recebê-lo, para darmos as boas-vindas a ele. O que realmente importa é como nos sentimos e as pessoas que escolhemos para estarem junto conosco. Você pode enxergar um ano novo chegando por dia, mesmo de olhos fechados. Como pode ouvir as coisas que não fazem barulho e conhecer lugares e países onde nunca esteve, envolver-se com pessoas e criaturas que nunca foram apresentadas a você. A maior prova disso é que eu e a sua mãe sempre te amamos, mesmo muito antes de você nascer. Lembra dos plânctons?

Sim! Eu adoro eles. Cadê os plânctons? Plânctooons! Plânctoooooooooooonnns!

Arnaldo riu:

Eles estão aqui, sobre a água e sobre a areia. Hoje não podemos vê-los porque a noite está tão clara, mas eles estão aqui, meu Amor.

A Menina sorriu imensamente para Arnaldo e pediu:

Eu posso entrar no mar de vestido?

Pode, meu Amor. Claro que pode. Você pode tudo. Vamos lá abraçar o nosso ano novo.

E os dois se jogaram juntos no mar da Praia de Fora, na Ilha do Mel, como se o tempo nunca nem sequer tivesse existido para eles. E era verdade porque essa noite estendeu-se para pai e filha para o resto da vida. Eles ainda conseguem voltar ali ou se transportam para muitos lugares muitas vezes por dia. Eles fazem isso de olhos fechados.

maio
19

Lá está você, sentado sobre a sua poltrona e aguardando a tripulação encerrar os intermináveis procedimentos de embarque.  A aeronave que te abriga é um imenso Boeing que está elegantemente estacionado diante de um dos portões do Aeroporto Tancredo Neves, em Minas Gerais. Sendo esse aeroporto o Aeroporto “de Confins”, você se encarregou de alguns procedimentos prévios, especiais:

  1. Escolheu um vôo noturno para não ser capaz de enxergar os pastos ao redor do terminal. Você que sempre tem a sensação de que os vôos saindo ou chegando de Confins miram nos pastos dos sítios e fazendas em volta.
  2. Somente realizou seu web check-in depois de ter confirmado, poucas horas antes, que não havia Qualquer possibilidade de chuva, nem a mais remota chance de uma gota descer do céu. Você que tem a sensação de que uma horda de sapos gigantes invadem a pista de Confins sempre que a precipitação desce, fazendo com que todos os vôos não consigam decolar ou, em caso de chegada, arremetam desde 2 metros do chão, como aconteceu da última vez que você foi a Belo Horizonte por Confins, indo acabar a viagem no Aeroporto Tom Jobim, no Rio de Janeiro.
  3. Finalmente, você escolheu um lugar na fileira do meio, espremido entre dois outros passageiros, e justamente na altura da saída de emergência, onde as cadeiras não declinam e sentam-se apenas os passageiros que não tiveram outra opção ou que se odeiam. Você que ama tanto sentar à janela, dessa vez optou por não ter acesso a ela para evitar a visão de sapos gigantes ou pastos repletos de vaquinhas mineiras.

Explicados esses procedimentos, podemos voltar ao ponto onde paramos. Lá está você enterrado no seu boné, sentado na fila do meio, perto da saída de emergência dentro da aeronave em Confins. Ao repassar, mentalmente, os procedimentos realizados antes, você sente uma espécie de alívio e segurança irem tomando conta do seu espírito. Falta somente mais um último procedimento, antes da decolagem, que é Rezar, afinal você vai voar do Aeroporto de Confins-MG. Então você junta as mãos diante do peito e vai começar a fazer o sinal da cruz quando vê um par de botas de borracha pararem no meio do corredor do avião, bem diante do assento imediatamente vizinho ao seu. Você suspira, interrompe o sinal da cruz e vai subindo os olhos. Você dá de cara com um macacão preto, colete alaranjado e um imenso rádio tipo walkie-talkie em volta do pescoço da pessoa que está dentro do macacão e das botas. Além do fone de ouvidos e do walkie-talkie, existe também uma credencial pendurada na altura do peito dessa pessoa. É claro que o conteúdo do crachá te chama a atenção. Ele lê “MANUTENÇÃO”, assim mesmo, em letras garrafais, como dizem. A pessoa atrás do crachá diz, comendo as últimas sílabas:

“Ei! Tá bem? Licença, foi aberto um chamado para uma manutenção, os senhores podem me dar licença?”

Era um mineiro, obviamente. Mais um dos milhares de mineiros que vivem em Minas Gerais. Ele está te endereçando mesmo quando você achava que já estava praticamente fora de Confins. Ele acabou de dizer que “foi aberto um chamado” e você pensa que essas quatro palavras, juntas, tomam uma proporção infinita quando você está dentro de uma aeronave prestes a decolar. Como assim, “foi aberto um chamado”? Qual chamado?? Quem está chamando??? São Pedro???? Em meio à sua taquicardia você percebe que o dedo do mineiro da manutenção da Infraero de Confins aponta para um lugar que você enxerga através da janelinha. Aterrorizado, tentando controlar a ansiedade, você devolve para ele:

“Uma manutenção aonde? Na ASA do avião???”

Não era. Tratava-se de uma pequena peça na altura da trava de emergência, absolutamente nada demais. O mineiro-manutenção realizou o serviço em breves instantes. Mais um pouco e o Boeing ganhou o céu sobre os pastos de Confins, sobre a Lagoa da Pampulha, sobre Belo Horizonte inteira, que parecia adormecer aos poucos, muitos milhares de metros abaixo. Você soltou outro longo suspiro. Você concluiu, mais uma vez, que Minas Gerais é o estado do Brasil onde você adora chegar e detesta partir.

maio
08

Desassossegado, juro, eu não minto mais
Cada obra vil desse pobre rapaz
Já dizia a nega com cheiro de alfazema
Trair um amigo, isso não se faz

Desesperado, prometo, não te roubo mais
Cada um sabe de si e do que é capaz
Tirar leite da rocha branca, fria e dura
Água mole nela tanto bate até que fura

E foi naquele dia quando o trem passou
Depois de tantos anos foi descarrilar
Meninos de uniforme subindo para o gol
E a santa, seminua, descendo do altar

Abestalhado, palavra, eu não te traio mais
Larguei até a branquinha que me satisfaz
E quanto àquela lá que você chama de Paixão
Hoje passo longe, eu só abraço o violão

E para cada acorde, cada verso vem num soco
Meus olhos fechados, eu encontro inspiração
Ainda tomo jeito, nem que seja por um troco
Um dia eu me endireito, vou compor uma canção

Desassossegado, juro, eu não minto mais
Cada obra vil desse pobre rapaz
Já dizia a nega com cheiro de alfazema
Trair um amigo, isso não se faz.

dez
07

Trajava o vestido florido quando foi até o centro da cidade, ao Cartório. Tinha que organizar uma papelada. Ao ter a senha anunciada, sentou-se levemente diante do segundo guichê, dentre os três ao longo do balcão. Foi indagada sobre o estado civil e respondeu, contrita: “Viúva…” e sorrindo: “… com a graça de Deus”.

Inspirado no texto “Viúva Negra”, de Danita Cotrim.

O “Viúva Negra” está entre os excelentes textos que compõem o Partidas ausências rupturas despedidas. A iniciativa da coletânea de textos – que reúne mais sete autoras – é do beco de escritores, e o livro foi editado pela Dobra Editorial.

nov
19

“And love is not the easy thing
The only baggage you can bring
And love is not the easy thing
The only baggage you can bring
Is all that you can’t leave behind (…)”

Bono Vox – U2 – “Walk On”, do álbum All That You Can´t Leave Behind

Simplesmente não fica para trás. Todos os dias você acorda para o mesmo pensamento. Por mais que os caminhos bifurquem, você acaba voltando para a mesma estrada arborizada. É como girar em círculos. É como se o tempo passasse ao longo de algumas horas até que regressasse tantas vezes que você perderia as contas. Como se tivéssemos que adiantar os ponteiros em uma hora para o horário de verão e, finda a estação, você atrasasse o relógio em alguns anos. Como olhar para um retrato em branco e ter que fechar os olhos para reconhecer a figura diante de si. Abandonar um sentimento que não te deixará jamais. Saber que existe uma ausência que faz parte de você. Despedir-se de alguém como se despedisse de si mesmo. Encontrar sobre o seu assento toda a bagagem que já havia despachado, sorrir para ela e seguir em frente de volta pra casa. Constatar que tem uma coisa que simplesmente não fica para trás.

out
02

Você desperta com uma goteira pingando sobre a sua testa. Os pingos são certeiros, gelados. Você então levanta e aciona quem acha que precisa acionar, aquela grana que você investe incessantemente é para isso. Chega toda uma equipe uniformizada. O barbudinho de cara simpática e conversa boa é o líder. Ele te encanta com muito carisma enquanto o time dele trabalha. Trata-se de um furinho no forro da sua casa.  A turma do barbudinho arranca todo o forro, enfia sobre a carroceria de um caminhão e se manda, o barbudinho na boléia. Quatro anos se passam e você não aguenta mais a chuva que atravessa o telhado da sua casa. Tem sido cada vez mais difícil desde quando aquela turma levou o forro embora. Mas você segue direcionando aquela grana, então chama a equipe. É o barbudinho de volta, só um pouco mais gordo e mais grisalho. Ele segue batendo papo contigo, pede uma pinga que você serve de bom grado enquanto o time dele termina de arrancar o telhado da sua casa. Eles jogam tudo no caminhão, o barbudinho te dá uma banana e eles partem. Mais quatro anos se passam e a sua casa agora parece um aquário, de tanta água que entra. Você está no tempo e sente afundar. Agora, além da chuva, são os ventos, raios e trovões que te incomodam. Você continua pingando aquele investimento, então chama a equipe. Dessa vez é uma senhora quem lidera o bando. Ela chega falando uns “eu quero te dizer que…”, “veja bem…” enquanto você assiste a turma dela derrubar as paredes da sua casa e jogar em cima do caminhão. A senhora aperta a sua mão e se despede dizendo “até daqui quatro anos, camarada”. De fato quatro anos transcorrem até que você aciona a equipe novamente. Alguma coisa bem lá no fundo te diz que talvez você pudesse acionar uma equipe diferente. Você não sabe se é o frio, se são os ventos uivantes ou as feras que começam a invadir e cagar na sua casa inteira, até em cima da sua cabeça, dia e noite sem parar. Mas você já se habituou àquele timezinho de ordinários, então você aciona eles de volta. Chega a mesma senhora de quatro anos atrás e te entrega um presentinho. Você desembrulha o pacote e encontra um nariz de palhaço. Você pensa em perguntar à senhora se é isso mesmo, mas você já está pelado, ela arrancou a roupa do seu corpo. Antes mesmo que você tenha tempo de abrir a boca, a equipe já puxou o seu tapete, arrancou o teu chão, jogou em cima do caminhão e se mandou.

set
16

Dias estranhos. Eu ia pensando nisso enquanto seguia pro trabalho. Segunda-feira lazarenta. Um frio, uma névoa, uma puta poluição. Segunda-feira cinza do caralho, sentindo um mau-humor daqueles pré-primeiro-copo-de-café. Olha o tamanho da fila na estação do metrô. Cacete, São Paulo é uma Merda. Uma padoca em cada esquina, entrei logo foi na primeira. Balcão, um pingado “mais pro escuro, gata!” e um misto frio. “Manteiga, gata, manteiga, nada de Maionegg´s”. E não é que a gata era ajeitada? Pensar que ontem eu comecei meu dia com um béquezinho, perninha de grilo, mas do bom, e agora isso. Na verdade, qualquer perninha de grilo me faz a cabeça, fico chapado, tranquilo. Só fumo de vez em quando, muito pouquinho mesmo. O bastante pra ficar relax, sossegar, dar uma zapeada na televisão, matar uma larica irada, dar um bode e aí já tô bom de novo. Já passou. Já era. Eu não passo pra frente, só compro de amigos, conhecidos, sei lá. Sou da paz. Enfim, o misto frio tava frio, mas o pingado também. “Ô gata, veja outra média aí, isso aqui tá frio”. Mas ninguém estava prestando atenção em nada, a gata tava com cara de sono e todo mundo olhando pra televisão. Toda essa merda de violência, PCC botando pra quebrar, a cidade virada do avesso. Tava lá o repórter dizendo que morreram mais não sei quantos, invadiram mais não sei onde, rebelião em tudo que é presídio, refém em tudo que é rebelião. Os ônibus em São Paulo pararam, não tem condição, estão queimando tudo que é ônibus. Por isso aquela fila na estação do metrô. Fodeu, vou chegar atrasado. Puta merda, a minha planilha, meu chefe vai me comer. Ou não. Vai chegar atrasado também. São Paulo parou. Será que pego o meu carro? Hoje é dia do rodízio dele. Mas nesse caos? Nada, nada, tô sem grana, fui maluco de comprar o aparelho de DVD pra minha mãe esse mês. Mas valeu a pena. Ontem foi o dia dela. A velhinha lá no interior e eu aqui. Às vezes chega a dar saudades de morar com ela lá. Ontem não deu pra estarmos juntos, dá um aperto no coração. Mas os meus irmãos foram. Levaram o DVD. Me ligaram de lá, falei com a velhinha e ela chega que chorava ao telefone de alegria pelo presente. “Não precisava, meu filho”. Precisava sim, mãezinha, você merece é muito mais. “Você não pôde vir, né? Tô fazendo aquela macarronada com carne de lagarto que você adora. Mas não tem problema, como está o trabalho? Tá precisando de alguma coisa? O dinheiro tá dando? Terminou de pagar a prestação do carro?”. “Terminei, mãezinha, terminei. Agora é o seguro. Mas não esquenta não. Tá tudo bem. Feliz dia das mães. Vai lá cuidar do teu almoço. Quase que dá pra sentir o cheiro da tua posta daqui. Eu te amo, mãezinha”. “Deus lhe abençôe, meu filho. Tô fazendo o teu pirê de batatas também, se sobrar te mando um pouquinho”. “Bênção, minha mãe. Aproveite o seu dia”. “Deus lhe abençôe, meu filho. Te guarde e te guie aí na cidade grande. Juízo”. Lembrando dessa conversa eu terminei o meu segundo pingado, dessa vez quente, me esquentando os dedos. Esse tipo de pensamento, na segunda-feira de manhã, naquela tensão antes do trabalho, da pressão do escritório, dos prazos, dos clientes. Uma lembrança da minha mãe lá no interior, das palavras dela, isso me faz lembrar de quem eu sou, de onde eu vim, de como nada pode me atingir. Na pior das hipóteses, se algum dia tudo der errado, eu tenho a minha família. Eu tenho muita gente em volta de mim que me ama de verdade. Tenho a minha formação. Não foi fácil, mas me formei. Eu queria ter ido ver a minha velhinha ontem. Não deu. Estava cansado. Tô sem grana. Ainda faltam três prestações pra terminar de pagar o carro. Era pra ter acabado, mas atrasei três parcelas. Agora é mês um, mês outro: um mês a prestação atrasada, outro mês o aluguel. É isso. Ontem, quando desliguei o telefone com a velhinha, acendi o béquezinho. Não fumo antes de falar com ela. Duas coisas que não combinam: baseado e conversar com a mãe. Não dá. Agora nem a gata da padoca presta atenção em mim. “A conta, gata, a conta”. É o noticiário na televisão. Enterro de um agente penitenciário. O filho pequeno chorando na beirada do caixão. Primeiro Comando da Capital. O repórter estava dizendo que toda a ação, maior já executada pelo crime organizado no país, foi planejada e está sendo comandada de dentro dos presídios. O governador declarou que está tudo sob controle. Tá bom. Só se for sob o controle dos bandidos. O presidente ofereceu ajuda das Forças Armadas. O governador não quer. Não precisa. É muita tristeza e mais essa apelação na televisão. Ficar mostrando a criança chorando. Mundo cão. Chega a conta. Três e oitenta, ela não cobrou o primeiro pingado. Dou cinco. “Guarda o troco, gata”. Ajeitada. Gostosa. Deve ser uma tarada. Vou andando. A fila na estação só faz aumentar. Ô tristeza. São Paulo é foda. Vou pensando nas planilhas, no chefe, na velhinha lá no interior. A essa hora ela está passando o café quentinho. Quase que tô sentindo o cheirinho daqui. Depois ela vai dar de comer pra cachorrada e então tomar o café. A cachorrada na casa da mãezinha acorda na hora que ela acorda, fica correndo no quintal da casa enquanto ela toma o café e come enquanto ela vai embora. Mas, antes de sair, ela abastece as garrafinhas de água que ficam penduradas pelas árvores do jardim, no quintal. São para os beija-flores. Sempre foi assim, desde quando eu e os irmãos éramos muito pequenos. Mãezinha colocava a água nas garrafinhas e, antes de ir trabalhar, sentava conosco no quintal para ficarmos esperando eles chegarem. Ela nos dizia que, se ficássemos quietinhos observando, a Mãe Natureza nos enviaria presentes coloridos do céu. E ali ficávamos nós, concentrados e sem dizer palavra, respirando baixinho e esperando enquanto mãezinha, silenciosamente, se retirava para trabalhar. Eu e meus irmãos nem piscávamos até que, como se fosse mágica, os beija-flores começavam a se materializarem no ar, coloridos, feito miniaturas de anjos. Primeiro um, depois outro, outro… Até que o jardim estava tomado pelas criaturinhas que eram as únicas que conhecíamos que conseguiam voar paradas no ar. Tão frágeis, lindas e surpreendentes. Beija-flores são a vida em forma de pássaro. Os anjos que a Mãe Natureza nos mandava de presente do céu, para estarem junto com a nossa família. Menino de tudo, eu pensava que era apenas no nosso quintal que os beija-flores apareciam. Beijavam somente as flores do jardim da minha mãe. Cuidavam de mim, dos irmãos, da mãezinha e do pai. Até hoje, mesmo todos os filhos tendo saído de casa há muitos anos, minha mãe ainda abastece a água para os beija-flores no quintal. Então leva o pai até a praça e segue pro trabalho. Volta pra almoçar, brinca com a cachorrada, dá de comer pra eles, pro pai, passa pelo jardim para olhar se os beija-flores estão por ali, lembra de cada um dos filhos, envolta em pensamentos e orações silenciosas, e volta pro trabalho enquanto o velho fica assistindo televisão. Esse também deu duro. Agora tá aí, aposentado por invalidez. Passa as manhãs na praça, jogando dominó ou dando de comer aos pombos.  As tardes olhando pra TV, pro teto ou para os fios na rua, aonde as andorinhas pousam e alçam vôo. Se não fosse a mãezinha para cuidar dele… Engraçado como os pais e as mães sempre pensam que os filhos não pensam neles. Mas a gente pensa, e pensa muito. Na entrada do metrô é um vento que corta. Fecho a jaqueta até em cima, apanho o bilhete múltiplo e passo a carteira para o bolso de zíper. Em São Paulo não pode dar mole não, irmão. Ventinho desgraçado, todo mundo encolhido, quieto. Tem só uma senhora gorda que fala sem parar. Parece que o filho de uma vizinha dela é detento. Tem rebelião na cadeia que ele tá preso, a mãe não recebe notícia, está num desespero só. “Que presente pro dia das mães” era o que a gorda ia dizendo enquanto eu pensava “ô mundo cão”. “O menino era drogado, passou metade da adolescência indo de Febem pra Febem, não teve cristo que botasse juízo na cabeça do moleque”. A gorda fala mais do que a boca. Frio da porra, a fila vai andando e a gente chega até a galeria interna. Uma multidão se espremendo. Chego perto da gorda, quero saber mais sobre o moleque e fico de canto, só escutando. Vai levar uma hora antes de a gente chegar até a plataforma do metrô. “Nunca foi flor que se cheire. Na Febem chegou até a comandar rebelião. Parece que fez refém, por isso vivia indo de uma Febem pra outra. Apanhava dos guarda, quando voltava pra casa, tava sempre estropiado. A mãe é uma trabalhadora, sofre pelo moleque, pensa que um dia vai endireitar. Ontem não saiu da frente da televisão, queria ir até a cidade onde ele tá preso, os outros filho que não deixaram. Que remédio? O moleque, se não morrer, vai acabar matando. Isso é o que o tráfico faz nas criança da gente”. Ô gorda bocuda. Começa o empurra-empurra, vou saindo pro lado, deixo a multidão ir seguindo. Quero ver o estado que vou chegar hoje ao escritório. O frio passou. Agora chega a dar um suador na gente. O repórter na TV tava dizendo que o tráfico banca o PCC. Quem é que não sabe disso? Uma amiga jornalista um dia foi fumar unzinho comigo lá em casa. Jornalistas são sexy, me atraem, mas são espertas demais. Essa uma entrou numa conversa de que eu e ela estávamos financiando o tráfico cada vez que fumávamos aquelas perninhas de grilo. Aquilo era hora de falar naquele assunto? Eu ali, chapadão, pensando naquela possibilidade por causa da conversa de jornalista da gata. “Mas eu só fumo umas perninhas”. “Mesmo assim, tu consomes. Viabilizas o negócio. Não houvesse consumidor, não haveria o tráfico. Isso que a gente faz é como apontar uma arma contra a própria cabeça (…)”. Jornalistas são muito espertas, dizem essas coisas e a gente fica pensando. E aquela era gaúcha, linda, me dizendo tudo aquilo daquele jeito. “Tá, gata. Então, se você sabe disso, por quê tá aqui comigo consumindo?”. Eu lembro da carinha felina dela pensando por um segundo, não mais do que um segundo até que, ao invés de me responder, soltou a bola pro alto, olhou pra fumaça e suspirou dizendo “esse é o mundo cão que a gente vive”. Eu pensava naquilo quando entrei no funil para as catracas da estação. Empurra daqui, empurra dali, passei o múltiplo pela fenda da catraca e, quando fui pegar de volta na saída, empurraram pra valer. Não deu tempo de alcançar o bilhete e fiquei puto, ainda devia ter umas oito unidades. Mas não tinha remédio, multidão em turba é pior do que mar de ressaca. De repente a coisa ficou russa. A multidão ia pra frente e voltava, ia de um lado pro outro, começou a gritaria. Foi tudo rápido, rápido, era gente correndo e apertando e querendo sair dali, parecia um estouro de búfalos. Então vieram os tiros. Uma rajada de metralhadora ecoando dentro de uma estação de metrô deve ser uma das coisas mais assustadoras de se ouvir. Outra rajada, gente se atirando no chão, ainda deu tempo de ver a gorda faladeira se agachando de encontro a uma das catracas. Mais uma rajada de tiros, gritaria, de repente eu era como um mastro, de pé em meio ao mar de gente se jogando pelo chão. Sei lá, não tive reação, o barulho, o susto, outra rajada. Tinha gente olhando pra mim quando senti as balas entrarem pela barriga, logo abaixo das costelas. Aquilo deu impressão de me rasgar ao meio, uma dor desgraçada. Por um instante parecia que não era comigo, tudo ficou em silêncio. O silêncio mortal. Levei as mãos até a barriga, por impulso. Quando senti o calor do sangue e olhei pras minhas mãos, tudo voltou. O vermelho do sangue, a dor, o som da gritaria, a visão das pessoas olhando pra mim, desespero naqueles olhares. Devo ter caído de joelhos, senti um frio como nunca havia sentido antes, a pressão despencando, se esvaindo junto com o sangue. Cada reação física acontece um instante antes dos pensamentos, o tempo se reorganiza. Mesmo assim, é impressionante como a gente sabe quando está morrendo, quando não tem volta. Eu soube que estava acontecendo, repentinamente desperto do sonho que é viver. “Como uma arma contra a própria cabeça”, o estalo. Quando moleque, eu sempre pensava em qual seria a minha última palavra antes de morrer. A última letra que eu pronunciaria, pra quem seria. Aquela coisa meio débil de mocinho e bandido morrendo no filme de faroeste. Os pensamentos, quais seriam? Dias atrás assisti um filme chamado “21 Gramas”. Dizem que esse é o peso que uma pessoa perde no instante quando morre. Exatamente vinte e um gramas. Deve ser quanto pesam as pálpebras ao se fecharem num piscar de olhos, para se abrirem novamente e fecharem outra vez. O peso de um leque de pensamentos encerrando o momento cabal. O peso da escuridão tocando o frio, se pudessem ser medidos em massa, se fosse possível mensurar o peso dessa fusão: vinte e um gramas. Ou talvez um bater de asas. Vinte e um gramas é quanto pesaria uma andorinha prestes a alçar vôo. Quanto pesa um beija-flor.

(conto escrito em maio de 2006, sob o calor dos acontecimentos violentos naquele ano. Postado hoje durante a 33a Semana Literária Sesc, que esse ano coloca literatura e violência em debate)

jul
22

E se ao invés de mísseis fossem cartas
Se os lança-mísseis disparassem palavras
E se as palavras levassem o conforto da real esperança
E elas tivessem o efeito de uma carta há muito aguardada?

E se fosse tudo ao contrário
Se abraçássemos os nossos inimigos
E os governos mandassem seus soldados ao front munidos de amor ao próximo
E os soldados fossem condecorados como bombeiros, por salvarem vidas?

E se ao invés de munição eles levassem livros
Se frente a frente os militares de todas as patentes trocassem Bíblia e Alcorão
E voltassem para suas famílias nessa mesma noite
E falassem de Fé mais do que sobre religião?

E se a Faixa de Gaza fosse transformada em uma espécie de Zona Franca
Se judeus e palestinos guiassem seus esforços para compreenderem
E deixassem o julgamento para o seu Deus de fé
E abdicassem do sofrimento em troca da compreensão?

E se as mortes cessassem e a vida brotasse abundante
Se parasse a violência, o derramamento de sangue
E fossem respeitados homens de bem, velhos, mulheres e crianças
E levantassem um muro de flores, construíssem grandes templos ecumênicos?

E se ao invés de separatistas surgissem os grupos gregários
Se ONGs brotassem no lugar de hordas
E baixassem armas
E levantassem fundos e meios?

E se parasse o espocar dos tiros
Se ouvissem apenas o bater das asas
E o cantar de pássaros
E fizessem longos intervalos para assistir auroras e alvoradas?

E se aviões de passageiros não explodissem mais no céu
Se chefes de estado tivessem menos poder
E enxergassem a diferença com doçura e mansidão
E fabricassem e lançassem somente bombas de chocolate?