Indo para o trabalho de manhã, a visão da garota ali, parada na fila, era como abrir a persiana da janela para o primeiro raio de sol – eu despertava para o dia. Uma loirinha de cabelos escorridos, cara lavada, ela estava em camiseta, jeans desbotados e um par de tênis barato, desses que se encontram em promoções arrasadoras e ficam soltos dentro de cestos de vime nas portas das lojas do centro da cidade. Logo atrás dela, como que a emoldurá-la, a placa do Habib´s lia “Pizza Grande: de R$15,80 por R$13,80”. Ela estava no acesso de serviço e, ao lado dela, totalmente absorto em terno preto e rádio na mão, o segurança do shopping olhava para o tráfego de carros na rua. Ocorreu-me que ele não notava que, ao lado dele, havia um anjo.
“Que linda!” – pensei alto enquanto a fila de carros não se movia.
“Quem?” – era o meu colega no carona do meu carro.
“Aquela gata na entrada do shopping”.
“Qual? A loirinha?”
“É”.
“Cala a boca, cara. Tu ainda não acordou”.
“Ela tem o olhar mais solitário que eu já vi”.
“Ela não tem graça nenhuma, tu só pode estar carente”.
“Cara, ela é a coisa mais linda que eu vi nos últimos tempos”.
“Tu quer é socar rola nela”.
Meu mau-humor de toda manhã ataca mais do que o refluxo:
“Cala a boca, meu, fica na sua”.
“O quê você viu na polaca?”
Felizmente a fila andou e eu segui, ficando com a imagem da garota decalcada na cabeça igual tatuagem que a gente acabou de fazer e não consegue parar de olhar. Fiquei imaginando onde seria a casa dela. Se ela morava com os pais, com a família, com uma tia velha, sei lá. Talvez morasse em alguma republica. Os pais haviam ficado no interior e ela tinha vindo estudar e trabalhar na capital. Conseguira o emprego em um shopping bacana na cidade e todo mês mandava um tiquinho de dinheiro para os pais na cidade deles. O velho estava derrotado, vivia encostado no balcão do bar. A mãe escrevia cartas de agradecimento toda semana, pedindo para a filha se cuidar, dormir muitas horas para descansar, e que não mandasse todo o dinheiro de volta pra casa, que guardasse um pouco para ela. Perguntava dos estudos e do trabalho. A mãe que nunca havia estado em um shopping, mal saíra da cidadezinha. Por isso a garota tinha muito orgulho por poder trabalhar de 10 a 12 horas por dia na loja. Ninguém olhava pra ela. Nenhum cliente notava aquele olhar solitário. Ninguém percebia como ela era linda, como gostava de estar ali ou quão satisfeita ficava em poder ajudar. Preferia um milhão de vezes ficar adiante do balcão, mas frequentemente precisava ir para trás receber as compras e empacotá-las. A loja fazia um rodízio e era assim que a vida seguia em frente. Horas a fio atendendo clientes que não lhe olhavam nos olhos. Longas horas sorrindo para pessoas eternamente apressadas. Raramente alguém lhe retribuía um sorriso. Frequentemente ela pensava na mãe, preocupava-se com o pai.
“Qual é, tá pensando na loirinha sem sal ainda? Tu é um maníaco”.
Eu só queria que esse desgraçado calasse a boca. Queria continuar tentando esquadrinhar a rotina dela. Os tênis, embora muito simples, eram novinhos em folha. Ela deveria tê-los comprado porque precisava calçar algo confortável enquanto pudesse. Seguramente recebia um uniforme completo para trabalhar o dia todo e ficar em pé tantas horas judiava dos pezinhos pálidos dela. Linda, forte, lutadora, essa garota seria uma grande mulher, imaginei o meu filho no colo dela, sorte de quem pudesse estar com ela pra valer. Senti uma pontada de inveja, mas não tinha, propriamente, a quem endereçar esse meu sentimento. O olhar mais solitário do mundo não sairia da minha cabeça nunca mais. Fui acometido por uma urgência, como se eu estivesse de nove meses, por dar a luz e a bolsa rompesse. Parei meu carro abruptamente. Soltei o cinto de segurança e escancarei a minha porta no meio da rua:
“Cara, pula pra cá. Dirige. Vai pra firma, eu te encontro lá mais tarde.”
Saí andando entre os carros e o meu colega saltou pela porta dele, estabanado. Ele gritava sem parar. Berrava coisas que, pra mim, não faziam o menor sentido. Berrava que eu era louco, que podia ganhar a gata que eu quisesse, que voltasse para o carro imediatamente, que mais tarde eu poderia voltar lá e comprar o shopping inteiro inclusive, com a gata dentro, que eu teria todo o tempo do mundo. Mas eu sabia o que estava fazendo. A garota valia muito mais do que todo o tempo do mundo e eu sentia que o tempo passava ao meu largo e passava para ela como passa, estranhamente, para o resto do mundo. O fato é que eu me sentia tão solitário quanto aquele olhar dela.